30 de março de 2010

Na véspera de não partir nunca

Estava a ouvir o albúm Apontamento da Margarida Pinto, conhecia a "apontamento", até porque faz parte do leque de poemas que gosto de ler, faz parte do sonho pessoano. Ouvi a "Na véspera de não partir nunca" e as palavras eram-me familiares. Numa adaptação da letra, Margarida canta mais um poema pessoano, do heterónimo que mais admiro, Álvaro de Campos.

"Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranqüilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!"

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